O que eu achei
Brincadeiras à parte, a obra original de Manel Loureiro tem um trunfo incrível: a escolha de narrar a história através de um diário. Esse formato imerge o leitor de cabeça, dando a nítida sensação de que encontramos um registro perdido em um mundo pós-apocalíptico real.
Tive uma experiência quase metalinguística com essa leitura: passei sete dias devorando o livro e, por pura coincidência, comecei a ler exatamente no mesmo dia do ano em que o protagonista faz sua primeira anotação. A imersão foi total.
Como em toda adaptação cinematográfica, mudanças são inevitáveis e alguns desfechos precisaram ser alterados. Ainda assim, o filme merece pontos por manter a integridade de cenas icônicas, como o tenso “primeiro encontro” no posto de gasolina.
Além disso, a essência emocional da história foi preservada. Tanto na página quanto na tela, Belén (irmã do protagonista) continua sendo a força motriz que faz Manel seguir adiante. E, claro, não posso deixar de citar seu fiel escudeiro: Lúculo, um gato siamês de temperamento forte que rouba a cena e atua como o verdadeiro suporte emocional do herói. Toda essa jornada, no fim das contas, é uma grande e necessária construção sobre como lidar com o trauma da perda de sua esposa.
O que faltou na tela: O ritmo dos livros vs. A pressa do cinema
Para um filme de 119 minutos (o que na era do Brain Rot, onde um vídeo de um minuto já parece uma eternidade, é quase um épico), a entrega até faz jus à obra original. Porém, as estruturas narrativas são bem diferentes.
No livro, a jornada do protagonista é quase “gamificada”. Ele tem pequenos objetivos cotidianos que vão sendo completados aos poucos; é como se, a cada quatro capítulos, o leitor ganhasse uma recompensa por uma missão cumprida. Isso dita um ritmo de sobrevivência muito particular.
Na adaptação, senti bastante a falta do vizinho rançoso, um personagem que dava uma dinâmica excelente ao início do isolamento. Mas o verdadeiro desvio de rota acontece quando Manel encontra os primeiros sobreviventes. É a partir daí que os objetivos mudam drasticamente, e a história entrou, para o meu gosto pessoal, em uma “zona de estranheza”.
Tive a sensação de que o filme acelerou o ritmo do livro em 5x, correndo contra o tempo para entregar uma conclusão rápida através de uma fuga um tanto quanto xinfrim. Felizmente, no último ato, a inteligência da direção falou mais alto: a adaptação soube frear e encerrar a história de forma fiel, entregando o desfecho que o livro pedia.
Vale a pena?
No fim das contas, Apocalypse Z - O início do fim sofre do mal de quase toda adaptação: a pressa do cinema em enquadrar semanas de desenvolvimento literário em duas horas de tela. Perdemos o ritmo cadenciado e “gamificado” que torna o livro tão viciante, além de personagens secundários que faziam a diferença.
Ainda assim, o saldo é positivo. Para os órfãos de boas histórias de zumbi, o filme entrega uma atmosfera honesta, respeita momentos icônicos e mantém o coração da obra — a relação de Manel com sua motivação familiar e, claro, o icônico Lúculo. Não é perfeito, mas é um entretenimento que respeita o material de origem mais do que a média do gênero.
Se você gostou do filme, fica a minha recomendação obrigatória: leia o livro. A imersão em formato de diário é uma experiência que as câmeras simplesmente não conseguiram replicar.