E aí Ivan Ilitch, chegou em Bobók?

É o epílogo de uma vida boa com uma ótima ressaca.

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Aqui, temos duas histórias pequenas dos gigantes russos: Tolstói com A Morte de Ivan Ilitch e Dostoiévski com Bobók. Acho que são leituras complementares; depois de uma breve ressaca acompanhando o agonizante fim da vida de Ivan, nada como esvaziar uma garrafa de vodka em um cemitério e ter visões do que acontece depois.

Para o clima do Brasil, é até estranho ler isso na beira da praia, com uma água de coco geladinha num quiosque. A brisa da maresia durante a leitura congelava os dedos e o rosto, e a areia impregnava como neve. Acho que até aqui você deve ter entendido esses estranhos paralelos.

Coloque-se como o espectador dessa novela: um senhor bem-sucedido está no fim da sua vida em uma cama, apenas observando o mundo ao redor. Durante toda essa observação, seus ouvidos escutam conversas e cochichos ao vento sobre sua pessoa. Esses diálogos nem sempre são o que se espera, já que, em sua maioria, são fofocas pelas costas e assuntos nunca contados, que esse senhor apenas descobre em seu leito de morte, envolto por familiares, amigos, conhecidos e você.

O Sr. Ivan, infelizmente, veio a falecer e você, leitor, sem rumo para o próximo livro, acaba pensando em algo que siga essa linha e vai para Bobok.

Uma garrafa de vodka, caminhando pelo cemitério. O álcool começa a subir e você se escora numa lápide. A visão fica turva e começam a aparecer figuras dançantes conversando e bailando. Voltei para o século XIX! As vestimentas e a fumaça ao redor… fumaça ou névoa? No século XXI, não se pode mais fumar — isso hoje é apenas nota de rodapé!

As pessoas conversam e você lá, apenas observando: um falava da sua fortuna; outro, que era o melhor funcionário público de sua época; outra descobria as vergonhas reprimidas e mais um estava como um cão no cio.

À medida que os diálogos ficavam mais “esquisitos” e o gole de vodka descia, as roupas iam desbotando, a pele dos participantes do diálogo ia se putrefando, e cada vez mais os olhos e o aroma de morte iam aumentando…

Parecia que ninguém o enxergava. Continuou escorado na lápide. Até que, antes do seu desmaio, Ivan Ilitch chegou aos seus ouvidos e sussurrou: Bobók!

Ao acordar, estava sentado no quiosque da praia, cheio de areia e com uma caipirinha na mão.