Do fundo do poço: morremos ou subimos.

Memórias do Subsolo é isso, uma empatia instropectiva do mundo que nos cerca

Do fundo do poço: morremos ou subimos. imagem

Há livros que terminamos e ficamos com aquela sensação incômoda de ter encarado a própria alma no espelho. Memórias do Subsolo é exatamente um desses. Pequeno em páginas, gigante na angústia que provoca, ele nos arrasta para um mergulho que é tudo, menos confortável. Mas, de algum modo, é necessário. O narrador, com aquela sinceridade cortante, chega a afirmar que sentimos prazer até numa dor de dentes. E é desse nível de estranheza, desse fundo quase obsceno da psique, que estamos falando aqui.

Quando fechei o livro, me dei conta de uma coisa curiosa: não me lembro do nome do protagonista. E acredito que Dostoiévski fez isso de propósito. Ele não precisa de nome. Ele pode ser você, pode ser aquele amigo que parece sempre à margem, e, com um pouquinho de honestidade brutal, pode ser eu também. O sujeito é um ex-funcionário público que decide viver no “subsolo” da sociedade, mas, na verdade, o subsolo é muito mais um estado de espírito do que um lugar físico. O problema dele é a consciência em excesso. Ele pensa demais, sente demais, e esse turbilhão todo o paralisa.

Enquanto o mundo lá fora tenta nos convencer de que tudo se resolve com lógica e matemática, que dois mais dois são quatro e pronto, ele se revolta contra essa ideia. Como vou deixar de citar essa passagem que me marcou?

“Não se enganará a razão quanto às vantagens? Talvez o homem não ame apenas a prosperidade? Talvez ele ame, na mesma proporção, o sofrimento?”

É aí que Dostoiévski nos cutuca com a ponta do ferro. Ele está dizendo que o ser humano não é uma equação, não é uma planilha de Excel. Existe um fascínio perverso pela dor, uma atração pelo abismo, e negar isso é simplesmente negar a nossa própria complexidade. A gente pode até fingir que não, mas quem nunca ficou remoendo uma mágoa, gostando um pouquinho daquele papel de vítima?

Aliás, voltando à dor de dente que ele menciona. O narrador passa um mês inteiro gemendo, mas aqueles gemidos não são sinceros. Ele mesmo admite que são gemidos maldosos, cheios de um prazer oculto em exibir o próprio sofrimento. É uma forma de dizer: “Olhem para mim, existo, estou aqui e estou pior do que vocês”. Quantas vezes já não fizemos o mesmo, ainda que inconscientemente? O subsolo, nesse sentido, é a escolha deliberada pelo desconforto, a teimosia de dizer “não” mesmo quando o “sim” seria o caminho mais curto.

E tem outro ponto que me deixou pensando por dias. Dostoiévski descreve o tal “romântico” russo, aquele tipo que compreende tudo com uma nitidez absurda, que enxerga as falhas do mundo e das pessoas, mas que, na prática, cede a tudo e não se conforma com nada. É o sujeito que guarda o “belo e sublime” dentro de si como um tesouro secreto, mas enquanto isso vai levando a vida atrás de pequenos interesses, migalhas de status.

“Nosso romântico é um homem de natureza larga e um grande maroto, o maior dos nossos marotos… até por experiência própria.”

Quando li isso, confesso que dei um sorriso amarelo. Porque o narrador está falando dele mesmo, mas está falando de todos nós. Somos perfeitamente capazes de cultivar ideais elevados enquanto agimos com uma mesquinharia danada no dia a dia. Sonhamos com o sublime, mas nos contentamos com o medíocre. É uma contradição que dói, mas que nos define.

Lendo Memórias do Subsolo, fui puxado pela minha própria memória. Lembrei da minha infância, daquela mudança brusca de um colégio particular para a escola pública. No primeiro, eu era o “pobre” da turma; no segundo, me vi com mais recursos do que a maioria. É uma gangorra desgraçada que nos ensina cedo sobre balizas sociais. Nessa hora, a pergunta que não quer calar é: até que ponto a gente se molda à carapuça que nos atiram? E até que ponto a nossa empatia, ou a falta dela, é só uma máscara de autodefesa?

O protagonista vive isso na pele. Ele é humilhado, ignorado, e responde com um silêncio calculado, com uma superioridade moral que muitas vezes beira o narcisismo. Ele desarma os outros com palavras mágicas, alfineta sem parecer que está alfinetando. Parece familiar, não parece? Conhecemos vários assim, e se formos honestos, carregamos um pouco disso também.

“Torturava-me então mais uma circunstância: o fato de que ninguém se parecesse comigo e eu não fosse parecido com ninguém. ‘Eu sou sozinho, e eles são todos.’”

É essa solidão ensurdecedora que move a narrativa, e é também o que torna a leitura tão difícil. Porque ninguém gosta de se ver sozinho numa sala cheia de gente, mesmo que seja na nossa própria imaginação. O desconforto vem da identificação, da certeza de que todos nós já nos sentimos assim em algum grau.

Mas, por incrível que pareça, Dostoiévski não nos deixa completamente às escuras. Em meio a tanto cinismo e amargura, ele insere uma fresta de luz. O narrador fala do amor como uma espécie de mistério sagrado, que deve ser preservado dos olhares alheios, quase como uma oração silenciosa.

“O amor é um mistério de Deus e deve ser oculto de todos os olhares estranhos, aconteça o que aconteça.”

É um lembrete de que, mesmo no porão mais escuro da alma, existe algo que escapa à lógica do sofrimento. Algo que vale a pena guardar.

No fim das contas, Memórias do Subsolo não nos dá respostas prontas. E essa é a sua beleza. Num mundo que vive nos empurrando para o alto, para a positividade tóxica e o sucesso inalcançável, Dostoiévski tem a coragem de nos lembrar que o fundo do poço existe. E mais: que às vezes a gente escolhe ficar lá, nem que seja por teimosia.

O sofrimento descrito ali não é um convite à depressão, mas sim um grande exercício de empatia. É um chamado para olharmos o próximo com mais cuidado e, principalmente, para olharmos para dentro de nós com menos hipocrisia.

Porque, no fim das contas, todos nós temos um subsolo. A verdadeira questão que fica ecoando, dias depois de fechar o livro, é: vamos ficar lá embaixo remoendo os nossos gemidos maldosos, ou vamos ter coragem de começar a subir?

Memórias do subsolo

Memórias do subsolo

por Fiódor Dostoiévski

Tradução do original russo com apresentação e notas de Rubens Figueiredo. Penguin-Companhia

Comprar agora →